Neste nosso primeiro diálogo vamos conversar um pouco sobre as
perspectivas de trabalho e de vida e o que a economia solidária traz
neste campo para os jovens. Esperamos que a economia solidária possa ser
uma realidade para melhorar a vida dos jovens, na construção da
sociedade que queremos: justa, solidária e sustentável!
Aquela conhecida pergunta “o que você vai ser quando crescer” está
rodando a sua realidade? Já sabe o que gosta de fazer ou não gosta? Por
mais que o futuro possa parecer indefinido é interessante conhecer
algumas realidades para ter uma opinião própria e poder desenhar e
sonhar com o seu melhor futuro.
Antes de mais nada, é importante ter em mente o que significa
trabalho em suas diversas interpretações. Em sua forma mais clássica, o
trabalho dos homens e mulheres se diferencia dos outros animais por
podermos planejar, refletir e construir na mente a ação antes de
colocá-la em prática. O trabalho pode ser entendido como um mero “ganha
pão”, algo penoso que se faz em troca de outros objetivos a partir do
esforço pessoal, por outro lado, o trabalho também pode ser compreendido
como algo que nos estimula, nos faz crescer e que nos torna melhores na
nossa condição humana no mundo. Cada perspectiva depende de como o
trabalho é realizado, quais as condições, épocas e liberdade que existe
ao desempenhar o trabalho. O trabalho é também um direito de todo
cidadão e muitas das conquistas sociais que temos hoje é fruto da luta
dos trabalhadores e trabalhadoras organizados por melhores condições de
vida.
Atualmente é possível situar algumas perspectivas de realizar o trabalho:
•
Trabalho assalariado, com carteira assinada em que existe
uma relação de emprego com um patrão, aonde o empregado realiza seu
trabalho seguindo as ordens de seu chefe e em troca disso recebe um
salário mensal e tem garantidos seus direitos de trabalhador ou
trabalhadora, ou seja, férias, 13o, FGTS e INSS. Neste caso existe a
subordinação do empregado com o chefe e é necessário seguir um ritmo de
trabalho e atividades que são determinadas por este. Assim, a relação
com o trabalho não é livre e autônoma, o produto do trabalho não fica
com o trabalhador, mas com o dono da empresa na qual se trabalha, o qual
também pode admitir ou demitir trabalhadores de acordo com a situação
da empresa ou da economia.
•
Trabalho autônomo, ou seja, a pessoa trabalha por conta
própria organizando seus horários e a gestão do seu trabalho com quem
vai prestar um serviço ou produção. Neste caso é possível fazer o
registro como autônomo, por exemplo, como microempreendedor individual
(MEI), contribuindo para o INSS, o que lhe garante aposentadoria,
auxílio-maternidade e doença. Ou mesmo, trabalhar sem o registro de
pessoa jurídica, informal, o que é muito comum em nossas cidades. No
geral, o trabalhador ou trabalhadora determina seu próprio trabalho.
•
Trabalho como servidor público, a partir do ingresso em um
concurso público, em virtude da publicação de um edital pelo setor
público. O trabalho segue um regime de acordo com o cargo assumido, seja
federal, estadual ou municipal. Aqui existe a garantia de estabilidade
no trabalho e dos direitos trabalhistas. No geral, os melhores cargos
ficam para aqueles que tiveram condições e oportunidades de estudo para
aprovação em uma prova de ingresso no serviço público.
•
Trabalho associado, a partir de um coletivo organizado que
realiza conjuntamente suas atividades e divisão de responsabilidades. As
decisões são feitas no grupo, seja ele formalizado, como cooperativa,
associação ou mesmo como uma associação entre vários empreendedores
individuais, e também um grupo não formalizado, ou seja, informal. O
trabalho associado tem maior autonomia e participação dos seus
integrantes, que juntos estabelecem seus objetivos, ações e
perspectivas, além de compartilharem os resultados do trabalho, com
divisão igualitária dos rendimentos ou dos prejuízos. O grupo pode se
organizar nos princípios da economia solidária, ou seja, como um
empreendimento de economia solidária, e isso pode compreender também que
recolham o INSS dos integrantes e outras garantias sociais com os
rendimentos do trabalho.
É nesta última forma de trabalho que a economia solidária traz sua
proposta de organização para produção e reprodução da vida. Mais do que a
busca de recursos para manutenção da vida de forma digna, a economia
solidária traz uma proposta de sociedade com base no trabalho associado.
Ela nasce como contraponto à economia capitalista. No sistema
capitalista ocorre a exploração do trabalho e dos recursos naturais para
atingir o maior rendimento e lucro possível, tendo como consequência a
precarização da vida das pessoas e da natureza, gerando desigualdades
sociais. Isso porque ocorre a concentração de riquezas e poder nas mãos
de poucos, a chamada classe dominante, sustentada pelo trabalho de
muitas pessoas que tem apenas sua mão de obra para oferecer, formando a
classe trabalhadora.
Entendemos que a vida se organiza em sociedade e que, portanto,
problemas sociais como desemprego, pobreza, fome e violência não são
problemas meramente individuais, mas da forma como estamos organizados
em sociedade, cujo papel do Estado e dos governos é também fundamental.
As manifestações nas ruas do país a partir de junho deste ano, tendo
como principais protagonistas os jovens, trazem esperanças de que nosso
futuro pode ser melhor, sinalizam que a nossa sociedade não está
acomodada a tantas injustiças e desigualdades. A economia solidária se
soma a estas mobilizações e a maior integração da juventude nas práticas
solidárias amplia o alcance e a força desta mudança social.
A economia solidária cresce em iniciativas de resistência e
criatividade para resgatar valores e práticas sociais que valorizem o
trabalho e a satisfação das necessidades humanas, promovendo e
preservando o meio ambiente e relações humanas com solidariedade e
cooperação. Tais práticas requerem mudanças que partem deste o nível
individual, a organização local, nacional e até o nível mundial. É
importante ter em mente que muitos passos já foram dados, e a economia
solidária é hoje uma realidade para milhões de pessoas que buscam
produzir, consumir e viver com maior distribuição de riquezas e
direitos. E ainda, na sua organização enquanto um movimento social
organizado tanto nacional, quanto internacional.
A autogestão é um dos pilares centrais das práticas solidárias,
exercida nas decisões coletivas, no direito à fala e opinião de cada
integrante, respeitando e valorizando as diferenças entre as pessoas
para exercitar o bem comum. Nestas práticas não existe a divisão entre
trabalho intelectual e trabalho braçal, mesmo que hajam conflitos no
grupo, o que é normal, a busca é que haja uma negociação em decisões
coletivas.
Os empreendimentos de economia solidária são a principal expressão
das práticas solidárias e tem como características principais:
• São coletivas (singulares e complexas), tais como associações,
cooperativas, empresas autogestionárias, clubes de trocas, redes, grupos
produtivos informais e bancos comunitários.
• Seus participantes ou sócias/os são trabalhadoras/es dos meios
urbano e/ou rural que exercem coletivamente a gestão das atividades,
assim como a alocação dos resultados.
• Podem ter ou não um registro legal, prevalecendo a existência real.
A forma jurídica não é o mais fundamental, mas sim a autogestão.
• No caso de associações sem fins lucrativos, estas devem possuir atividade(s) econômica(s) definida(s) em seus objetivos.
• São organizações regulares, que estão em funcionamento, e
organizações que estão em processo de implantação, com o grupo de
participantes constituído e as atividades econômicas definidas.
• Realizam atividades econômicas que podem ser de produção de bens,
prestação de serviços, de crédito (ou seja, de finanças solidárias), de
comercialização e de consumo solidário.
• Respeitem os recortes de gênero, raça, etnia, geração, orientação
sexual, grupos socais minoritários como comunidades tradicionais e de
fundo de pasto, quilombolas, indígenas, ribeirinhos, portadores de
necessidades especiais; que abominem toda a forma de violência contra
mulheres, crianças, índios, negros:as; e que contemplem a dimensão ética
em suas ações e atividades.
• Consideram o direito de trabalhadores/as e não exploram o trabalho
infantil, considerando exploração o trabalho forçado e coagido e não a
transmissão de saberes tradicionais entre pai, mãe e filhos na
agricultura familiar.
• Valorizam o compartilhamento, entre homens e mulheres, do trabalho reprodutivo e do cuidado com as pessoas.
• Ajam corretamente com critérios ambientais nas suas atividades
econômicas, buscando a priorização da conservação ambiental e o
desenvolvimento humano.
Para ter uma melhor ideia, os empreendimento de economia solidária
exercem atividades na cultura, (como grupos de teatro, dança, música)
software livre, cooperativas de agricultores familiares, grupos de
produção de costura, alimentação, reciclagem, artesanato, serviços
especializados, produção de móveis e eletrodomésticos e muitos outros.
Muitos destes se organizam em redes e em articulações que fortalecem e ampliam sua organização e sustentação.
Envolva-se!
Oferecemos a música Latino América – Calle 13, uma linda mensagem para o mundo em que vivemos! acesso em:
http://www.youtube.com/watch?v=DkFJE8ZdeG8
Convidamos tod@s @s jovens a vivenciarem as práticas da economia
solidária! Seja no consumo responsável, na sua alimentação com saúde, na
sua organização comunitária, no seu trabalho. E que esta coluna levante
novos horizontes para sua vida!